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domingo, 1 de abril de 2012

A cor saudade é cor de flicts

texto escrito em: 23 de dezembro de 2011



Na verdade já passa da uma da manhã. Estou em Caravaggio. Cheguei aqui ontem e sem vontade.
Não me arrependo de ter vindo, eu não sabia que a nona estava doente no hospital. Fui saber quando fui até lá com o tio Moa que foi me buscar na rodoviária para eu ir pra casa depois.
Mas para uma breve explicação:
Não chamamos ela de vó, só de nona.  Sempre foi assim!
Os corredores do prédio azul se mexiam ávidos com os berros de infância:
 - Nona, nona, nona.

Ou os berros de nossas mães reprimiam qualquer forma de efusividade:
Não incomoda a nona,
A nona tá dormindo
Vai lá dá um abraço na nona. – E as crianças davam pulos em seu colo.

Era um jeito de considerar a pessoa mais idosa da família, eu pensava.

Enfim, no hospital eu nem pensava que a nona estivesse ruim. Até falei com ela. Eu logo disse: que linda nona, fazia tempo que não te via.
E ela respondeu com os olhos pingados de até logo: ôôo sim linda, deitada aqui nessa cama. E eu logo larguei: ah, mas logo a nona sai daqui né?!
E então me apoiei em outro assunto.
Eu pensei que a nona logo fosse melhorar e sairia dando risos assustados pelos corredores. Mas não, hoje pela manhã ela foi pra UTI e à noite veio a mãe com a notícia de que a médica havia dito que dessa noite ela não passava.
Eu nem acreditei.
A dor maior é de quem fica. Ainda mais pros filhos da nona Henriqueta que se encharcam de sal bem mais que a pipoca do fim de semana.
Eu penso é na família depois. A nona vivia querendo nos unir chamando pra festas e pras ceias. Não sei como que ela conseguia erguer tanta gente com aquela idade toda.
A família era mais pesada que os tijolos que o meu pai carrega.
Fazia-se de raiz e rizoma e dava voltas por tudo. A Nona era um tipo onipresente e fazia milagres conseguindo unir a turma toda.

Falo no verbo passado porque não consegui dormir essa noite. Mal tentei e já dei pulos na cama com o telefone tocando.
A Nona se foi, disse o tio Moa pra mãe. E vi lágrimas na Val!
Ainda não chorei. Mas sei que logo vai doer. É o estado da embriaguez que não deixa acreditar, já dizia os experientes em ver partidas.


A Nona adorava Natal! Esse ano não teremos abraços dela.
E também não teremos a cesta de ouro negro e sonho de valsa que ela preparava.
Nem nunca mais verei a sua mão nas costas na altura da cintura e o seu andar pesado e lento.
Três terços por dia! Vai rezar, que Deus ajuda, minha filha! Era assim que dizia quando alguém vinha com problemas.

A sua forma de dizer que estava com saudade era de engordar sorrisos.
O seu café aos domingos à tarde se fazia de sonho para tantos cafés de domingo à tarde que não eram os dela.
Mortadela todo o mundo comia, mas só na casa da nona que tinha cara de mortadela da casa da nona. Era tão mais gostosa, bem quase me arriscava a dizer que era uma mortadela diferente.
Eu dizia pra mãe: vou deixar pra tomar café na nona!
O café doce dela era tão doce quanto tantos cafés, mas só aquele tinha cheiro de nona e só aquele eu me permitia tomar.

Ontem eu fui lá dentro, dizia a Henriqueta.
Eu nunca conheceria o lá dentro se não fosse ela.
O lá dentro é tão mágico quanto qualquer ideia de céu.

Mas hoje não valeria dizer isso.
Hoje só temos lágrimas.
E vejo inúmeros olhos de Nona se lacrimejando por aí.
Olhar que hoje despedaça incontrolavelmente.
Bom, a ideia não era fazer doer mais.
A ideia era colocar a mostra os corações.
Mas dói revisitar. Dói porque essa saudade, sendo um dos sentimentos mais urgentes como já diria Clarice Lispector, não morre. Ela esculhamba por dentro, remói. Faz buracos feito bicho de goiaba. Revisitar te permite viver de outra forma. E essa forma é doída porque não é concreta.
Por fim, me recordei de um poema do grande poeta Manoel Barros.
Ele escreve:

O tempo só anda de ida.
A gente nasce cresce amadurece envelhece e morre.
Pra não morrer tem que amarrar o tempo no poste.
Eis a ciência da poesia:
Amarrar o tempo no poste.

Vamos amarrar esse tempo nas mais altas abstrações. E que mesmo que o alicerce da família tenha se partido, que nos façamos alicerces por nós mesmos. E em meio às lembranças.
Em nome da paz, em nome dos filhos e netos, em nome do amor (eterno). Amém!














segunda-feira, 26 de março de 2012

MEIO DIA


Porque a fome apareceu que me fizeram sentar ao lado de dois corpos para que eu comesse o que me era oferecido.
Eu já nem queria, estava refogada toda de sal e água quente.
Mas eu comi.
Sentei na cadeira que de tão dura não me fez afundar.  E por não ter conseguido afundar caí com a cabeça bem acima do prato afogado de comida.
E, acreditem ou não, era uma disputa interna entre quem chegaria primeiro ao prato: minha boca, meu nariz ou meus olhos.
Meus olhos nem estavam ligando praquilo tudo, queriam apenas ser fechados ao modo que não pudessem ver mais nada que lhes chateassem.
Minha boca só abria porque o garfo já estava estocado de comida e também porque só lhe havia a obrigação de comer, mais nada.
Meu nariz é que ficou bobo com a vitória de ter encontrado o gelado do prato em primeiro lugar. Saiu pingado com  o suor do feijão.
A felicidade foi mais efêmera do que eu pensava. Descontentou-se no segundo em que enfiei minha mão na frente do rosto.
Ué, ficaria eu com o nariz todo enlameado de caldo?
A comida estava boa, mas falei pra minha boca ficar quieta. Não precisaria agradecer naquele momento. Não queria conversar, queria sossego.
E sosseguei depois de me ter saciado, molhando meu rosto todo com o sol das 16 horas. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

" O uivo "

Acho que o desespero começa a tomar conta quando você percebe que o limbo tornou-se um lugar comum; quando você olha ao lado e vê que não há vão que lhe sirva de apoio; quando você não consegue encontrar sentido algum em seus anseios.
Hoje me tomei por esse exato desespero. Olhei pro lado e tive a certeza de que não havia nada que eu pudesse me segurar, que eu pudesse explanar euforicamente: "ufa, era disso que eu estava falando". Ao contrário, senti o vazio flutuando bem abaixo dos meus pés como se fosse uma fumaça fina namorando o ar. Senti-me com o coração saltando pela boca em forma de impactos constantes com a minha mente.

Coração X Mente Coração X MenteCoração X MenteCoração X MenteCoração X MenteCoração X Mente Coração X MenteCoração X MenteCoração X MenteCoração X MenteCoração X MenteCoração X Mente

Ele fazia o 'tum-tum-tum' de uma forma mais ousada e triste. Era uma dança eufórica. E eu começava a soluçar. E os soluços aumentavam de acordo com os meus pensamentos. Eu pensava:                                      

"eu poderia ter sonhado menor"

(eu poderia ter sonhado menor eu poderia ter sonhado menor eu poderia ter sonhado menor) 

E sonhando menor eu poderia ter escolhido fazer um curso numa faculdade medíocre, conhecido um cara legal e medíocre que eventualmente se tornaria o meu marido (porque eu aprenderia a amá-lo), depois teríamos um filho ou dois e viveríamos felizes numa vida medíocre trocando de carro todo o ano e indo aos bailes dançantes quatro vezes em trezentos e sessenta e cinco dias ( porque, ao menos, eu não deixaria de gostar de dançar). Mas não, contrariamente a isso e graças ao bom deus que eu não acredito, eu escolhi sonhar de um tamanho maior.

E os meus pensamentos seguiam:

"eu sou pequena demais pra mudar mundos"

 e um lançar lágrimas no colchão.

" Como posso eu ter razão se eu não dou duro dez horas por dia ?" Como posso dizer que não é bom ouvir  comentaristas falando sobre os gols do campeonatos estaduais?" "Jamais poderei eu convencer alguém de que a noite não é das novelas globais".

e o lençol já era molhado demais pra poucos minutos de desespero.

"Minha família é o próprio povo e eu não consigo dialogar". 

e ainda mais lágrimas.

(...) E de repente  penso que todos estão bem. Penso que todos estão bem em suas dores. E estão confortáveis assistindo os seus programas medíocres. Por que o que há de ruim nisso? Alieno-me em tantas outras coisas que não deixam de se igualar às telenovelas...

E me frusta não conseguir convencer. Frusta-me perceber que os ninhos não têm ouvidos e muito menos boca.
Sou desajeitada no falar.


Mais soluços.
Muito mais soluços.
Soluços frequentes.


Respiro, preciso me acalmar. Vou até a sala: "Mulheres de Areia".

Soluços.

"Tudo se torna real ao tirar o pé da bolha".

Depois fico bem na minha dor. Alieno-me nas palavras de conforto: alguns poemas bonitos, algumas frases curtas, uma música calma....

Algo que traduza diferentemente as mesmas dores.


E saio cantando:


" Pero falta poco para que los demos vuelta!
Lo mire en tus ojos, no se puede parar
Pero falta poco para que los demos vuelta!
Lo mire en tus ojos, esa noche, no se puede parar!!"








quinta-feira, 1 de março de 2012

AMIÚDE



Como posso sentir o gozo da vida dentro desse existir?

É muito amendoim pra pouca boca e muita bagunça pra pouco corpo. Meus dias se repetem numa odiosa espera pelo nada. Transforma-se num instrumento de ‘esperacitude’, inquietude, solitude.  Um ude assimilado nas mais insensatas raízes de palavras. Sou o próprio sufixo.

“Um purgatório indecente dos que sentem sem dizer”, tenho repetido isso diversas vezes nesses últimos dias.

“Um purgatório indecente dos que sentem sem dizer

Um purgatório indecente dos que sentem sem dizer...Dos que calam.
Dos que calam, mas que não calam porque querem, calam porque não há som que os contemple.
E nada que vem de mim me satisfaz: nenhum assunto, nenhuma palavra, nenhum gênero... Aliás, nada vem de mim. Sou o nada vagando com clareza.
Embora isso, a preparação para o nascer do grito não cessa: as cordas vocais continuam a trabalhar. 
É um constante exercício! Faço gargarejo, refresco o corpo, saio pra passear. Mas como se isso fosse suficiente. 

"Jamé", como diria, abrasileiradamente, o bom brasileiro (claro).

(...) O único som que emana é o do próprio teclado aglutinado a um som mais distante que é do recolher da louça do jantar. Nenhum som mais. Desisti da música, ela não consegue mais inspirar. Pausei Egberto Gismonti, Godspeed You Black Emperor, Eddie Vedder, Arnaldo Batista, Sigur Rós. Nenhum desses ecos me fez ecoar.

Quem sabe quando eu não tiver sobre que dor escrever ou mesmo quando eu não desejar sentir esse incompreensível alívio que existe entre o intervalo do querer escrever e ter escrito.

Não é à toa que no senso comum dizem que quando a gente não procura é aí gente acha, não é? Ou é ao contrário? Já nem sei.

Bom, que se dane!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

EU nunca sei.

É mais uma tentativa:

a noite chega, quer dizer, a madrugada chega e se repete como as outras madrugadas que se repetiram como outras tais madrugadas que fraquejaram silenciosamente remoídas em minha mais tristealma. A insistência, que me faz doer mais do que se eu não insistisse por esse momento que não chega nunca, é o que me faz estar aqui. Já nem sei o que escrevo, e jamais lerei o que escrevi por medo de haver mais uma noite fraquejada. 

Porque a razão é escrever. É dedilhar, dedilhar, dedilhar sem olhar o que foi dedilhado.
Hoje a questão de honra fala mais alto do que qualquer métrica, coesão ou coerência. 
Já tomei três xícaras de café em apenas trinta minutos e suo feito uma mulher diante de uma fornalha.

Preciso transpirar palavras, mas meu silêncio não grita com os dedos. 

Amanhã talvez... 






domingo, 26 de fevereiro de 2012

O ano que morreu de corpo

O ano que morreu de corpo está revirado de sementes.




O broto está nascendo agora.

Eis vazio

Dentro de mim há uma vida desmanchada em sangue.

E nem sorrisos, e nem andares, e nem Clarice. E nem dizer que todos somos iguais, que não se joga lixo no chão e que somos apenas marionetes tentando arrancar a corda que nos embala. E nem teorias eu aplicarei porque preciso estudar e não tenho tempo pra outra alma que não seja a minha.

" Quando acabará isso tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos?" B. Soares